| Clipping | CNTE |
|
||
Data: 21/12/2008 Veículo: O GLOBO Editoria: REVISTA O GLOBO
|
||
|
Conheça a escola que levou um modelo de ensino neo-humanista para crianças carentes de uma pequena cidade na divisa de Rio e Minas A poucos quilômetros de Belmiro Braga, uma cidadela próxima à divisa de Minas Gerais e Rio de Janeiro, surgiu nos anos 80 um povoado apelidado pelos moradores de Vila São Francisco. O lugar foi se formando mais ou menos assim: para evitar que empregados tomassem posse de terras por usucapião, uma lei que causou alvoroço na época, patrões das redondezas expulsaram levas de agricultores de suas fazendas. Sem ter para onde ir, as pessoas se amontoaram ali, naquele pedacinho de terra sem dono.
Vila São Francisco apareceu no mapa desprovida de qualquer planejamento, de qualquer infra-estrutura. E com uma infinidade de problemas sociais - entre eles, a falta de uma escola para as crianças. Para poder estudar, os meninos tinham que percorrer pelo menos 15 quilômetros a pé pelas estradinhas de terra.
A história mudou com a chegada de uma turma de seguidores de um filósofo indiano chamado Shrii Ananda Murti, fundador do Centro de Ioga e Meditação Ananda Marga, que nasceu em 1955 na Índia e tem filiais em 150 países. No Rio, a base do instituto fica em Copacabana. Em 1990, o grupo comprou uma fazenda para retiros espirituais bem ali, em Vila São Francisco. E mudou a paisagem, criando a escolinha Sol Nascente, que levou para a meninada pobre, sem esperança, sem futuro, um modelo de ensino até então exclusivo de crianças bem-nascidas: o neo-humanismo, que prioriza o desenvolvimento emocional, intuitivo, criativo e espiritual. É uma linha de pedagogia parecida com a das escolas Waldorf, que fazem sucesso no mundo todo. Segundo essa filosofia, não basta aprender português, matemática etc. O desafio é formar pessoas bacanas.
- Trabalhamos as bases éticas e morais do ser humano. A idéia é que essas crianças cresçam saudáveis em todos os sentidos, criativas, inteiras, felizes - diz a pedagoga Sandra Brys, uma das fundadoras da Sol Nascente. - A fazenda foi comprada por 30 pessoas, que doaram cem hectares para projetos sociais. A escolinha, para crianças de 3 a 5 anos, é um deles.
O prédio da escola é uma graça, com jardim, playground e salas equipadas com toda a sorte de brinquedos pedagógicos.
Mantida com doações dos padrinhos - jovens freqüentadores do Ananda Marga no Rio -, a Sol Nascente foi mudando de cara ao longo dos últimos 18 anos. No início, funcionava numa casinha velha, sem estrutura, contando com a boa vontade de professores voluntários. Há quatro anos, o espaço foi finalmente inaugurado.
- Não tínhamos nem luz. O importante era conseguir introduzir uma nova filosofia de ensino para as crianças.
Elas se sentavam no chão, não tinham brinquedos, comiam com o pratinho apoiado em tocos de madeira - conta Dhiira Gomes, a tia Dhiira, uma mãe que resolveu arregaçar as mangas e colaborar com o projeto. - Tudo o que nos ofereciam a gente pegava. Percorríamos as lojas de xerox pedindo papel usado. Eu queria que os meus filhos tivessem acesso ao que o pessoal do Ananda Marga estava nos propondo. Então fui à luta. Meus três filhos estudaram aqui.
A rotina da criançada é mesmo especial.
Às 7h, os alunos iniciam o dia com o "círculo do amor": cantam mantras e praticam ioga e meditação. Em seguida, vem o café da manhã. Depois, brincadeiras pedagógicas e livres, além das disciplinas convencionais. Às 11h, almoço. Tudo vegetariano e orgânico, colhido na horta da escola, plantada pelas crianças. Segundo Sandra, formada em pedagogia e com especialização na Universidade Gurukula, em Calcutá, no modelo de ensino neohumanista, a ioga e a meditação são fundamentais para aumentar a concentração das crianças. E a alimentação vegetariana ajuda a desenvolver a consciência ecológica e o respeito à vida. Ninguém reclama de não ter carne.
Estefane, uma das aluninhas, diz que não gosta mais de comer "bicho morto". Prefere os pratos vegetarianos preparados pela cozinheira da escola.
Até em casa não come mais carne.
- As crianças se dispersam com qualquer coisa. O que nós fazemos? Vamos conseguindo foco, através de vizualizações criativas. Pedimos que fechem os olhinhos e prestem atenção no canto dos pássaros, uma preparação para a meditação. Aos poucos, elas vão conquistando a introspecção - diz Sandra. - Já as posturas físicas da ioga são usadas para estimulação cerebral. A do leão trabalha a fala. A do coelho ajuda no desenvolvimento do pensamento lógico. A do pássaro traz equilíbrio emocional. Obviamente, uma criança não faz ioga como um adulto. A coisa é mais lúdica As atividades da Sol Nascente não se limitam ao espaço da escola.
Segundo a tia Dhiira, vira e mexe os professores vão bater na porta dos pais, propondo ações que os envolvam no novo mundo dos filhos, como bordar as toalhinhas usadas no lanche ou encapar os cadernos. Um dos principais focos do trabalho fora das salas de aula, no entanto, é a educação ambiental. Em Vila São Francisco, água limpa tornou-se um desafio diário. Não há rede de esgoto.
Então, aprender a manter a torneira fechada, a não poluir o rio local, a plantar perto das nascentes é fundamental para a sobrevivência do povoado.
- De um modo geral, as nossas escolas públicas não trabalham a valorização do amor, da natureza.
Essas crianças vêm de famílias problemáticas, às vezes com pais alcoólatras e mães que são vítimas de violência doméstica. Esse embasamento humanista é precioso e indispensável num contexto de miséria.
Posso afirmar: com a Sol Nascente, as crianças passaram a educar os pais - diz Dhiira. - As mães contam que as criancinhas chegam em casa e dizem que querem tudo igual na escola. Esse projeto me ajudou muito pessoalmente.
Quando os meus filhos começaram a estudar aqui, eu não sabia nada. Aprendi a me relacionar com o meio ambiente e com as outras pessoas vendo os meus filhos aprenderem.
A turma da Sol Nascente tem planos ambiciosos para o ano novo.
Já em 2009 vai funcionar em Vila São Francisco um centro de educação neo-humanista, com o propósito de formar educadores.
Outra novidade para o próximo ano é a implantação na escolinha de uma técnica de ensino chamada ginástica cerebral (do inglês brain gym). A pedagoga Sandra Brys fez uma especialização na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, onde nasceu essa história, e pretende replicar por ali a técnica cujo objetivo é a ativação da inteligência através da sincronia de movimentos. A brain gym é formada por movimentos bastante simples e agradáveis que aprimoram a experiência de aprendizado, utilizando os dois lados do cérebro.
Segundo os adeptos da técnica, essas atividades tornam mais fáceis todos os tipos de aprendizado, sendo especialmente eficazes no desenvolvimento das habilidades acadêmicas.
- A chamada ginástica cerebral é hoje top de linha no aprendizado infantil. No Sul do Brasil, por exemplo, ela já está bastante difundida.
Eu passei pela Califórnia e sou uma das instrutoras autorizadas no país. Agora você imagina só: com a brain gym e a ioga no currículo, essas crianças vão mesmo longe - aposta Sandra. |