Clipping CNTE
Não há castigo corporal tolerável (Artigo)
Data: 31/07/2010
Veículo: FOLHA DE S. PAULO - SP
Editoria: TENDÊNCIAS
Assunto principal: OUTROS
Tamanho
da fonte
A - A +
TENDÊNCIAS/DEBATES

Deve ser aprovado o projeto de lei que proíbe punição física a crianças?

SIM

PETER NEWELL e PAULO SÉRGIO PINHEIRO

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso Nacional projeto de lei alterando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proibir toda forma de punição violenta dos 69 milhões de crianças brasileiras.

Como bem demonstrou a pesquisa do Datafolha, 72% dos brasileiros sofreram sistematicamente com castigo físico quando crianças.

Nos 50 países que visitamos quando preparamos para a ONU o Relatório Mundial sobre Violência contra a Criança (2007), as crianças foram eloquentes em nos dizer que estão cansadas de serem submetidas à violência diária, rotineira, experimentadas em seus lares pelas mãos de seus pais e nas escolas por seus professores: o castigo corporal é universal.

Todos os países, inclusive o Brasil, têm leis penais que protegem as pessoas adultas de serem alvo de agressão. Mas, quando se trata de crianças, a lei autoriza os adultos a agredi-las, à guisa de "disciplina".

O Datafolha revelou que 58% dos pais já bateram no filhos e que 54% são contra a lei, deixando entrever que, toda vez que os adultos são confrontados com essa questão, se sentem ameaçados em criticar seus próprios pais pelos castigos físicos ou tomam a proteção dos direitos da criança como um ataque contra o pátrio poder.

Deve ficar claro, no entanto, que não se trata de retirar a autoridade dos pais e da família nem de criminalizar pais, mas de promover formas positivas, não violentas de disciplina, muito mais eficazes que dar palmadas a torto e a direito.

Hoje, não há nenhuma dúvida de que os castigos físicos são uma violação dos direitos da criança e de que o Estado tem o dever de protegê-la, pois os direitos humanos não param na soleira das casas.

Em 2006, o Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança interpretou a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança -ratificada pelo Brasil e por 191 países- emitindo um comentário geral formal sobre o direito da criança à proteção contra o castigo corporal, enfatizando que "eliminar a punição violenta e humilhante das crianças, por meio da reforma das leis e de outras medidas necessárias, é uma obrigação imediata e incondicional"" de todos aqueles países.

O Comitê deixa claro que não se pode medir a gravidade da palmada nem se definir uma forma "tolerável" de castigo corporal de crianças, da mesma forma que não se tenta definir se a violência é "aceitável" ou "razoável" no caso de violência contra outros adultos, mulheres ou pessoas idosas.

No ano passado, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, em um relatório, confirmou a obrigação de todos os países do continente de proibir imediatamente todas as formas de castigos corporais -estabelecendo como meta para o cumprimento o final do ano de 2011.

A lei, quando aprovada, fará do Brasil o 27º país no mundo a conseguir a proibição completa dos castigos corporais, inclusive no âmbito familiar. Na América Latina, Costa Rica, Uruguai e Venezuela já têm proibição completa de todas as formas de castigos corporais.

Na Europa, o Conselho Europeu lançou campanha em 2008 para a proibição universal de todos os castigos corporais em seus 47 Estados (em 22 deles já são proibidos).

As crianças são o último grupo no Brasil a que falta alcançar igual proteção contra agressões.

Quando o Congresso aprovar o projeto de lei protegendo os 69 milhões de crianças brasileiras da violência, dará um marco notável na campanha global para libertar as crianças de punições violentas e humilhantes.

PETER NEWELL é coordenador da Iniciativa Global para o Fim de Todo Castigo Corporal das Crianças, sediada em Londres. Site: www.endcorporalpunishment.org.

PAULO SÉRGIO PINHEIRO é comissionado e relator da criança da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. Foi secretário de Estado de Direitos Humanos no governo Fernando Henrique Cardoso.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br