Veículo:
CORREIO BRAZILIENSE - DF 
Editoria:
ECONOMIA  
Data:
01/02/2009 
Assunto:
ASSUNTOS GDF
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Entrevista - Benedito Carraro
Investimento em subestações e transformadores pode fazer CEB entrar, no prazo de um ano, no grupo das 20 melhores companhias de fornecimento de energia elétrica

O novo presidente da CEB, Benedito Carraro, tem um desafio e tanto pela frente: fazer da concessionária uma das melhores do país, compromisso assumido publicamente, ao ser empossado no cargo no último dia 5. A maior queixa dos consumidores no Distrito Federal é o grande número de ocorrências de cortes de fornecimento de energia elétrica. Para estancar o problema, estão sendo investidos R$ 200 milhões - R$ 100 milhões em 2009 e R$ 100 milhões em 2010 - em transformadores e criação de subestações de energia elétrica. "Em 2006, por exemplo, o volume de investimento destinado para distribuição foi só de R$ 15 milhões. Este ano, estamos prevendo R$ 100 milhões. A prioridade zero para nós é distribuição", promete. Segundo Benedito Carraro, até maio serão concluídas 15 obras que darão alívio para moradores de diversos pontos do DF, como a instalação de um transformador de 50 MVA em Sobradinho, prevista para hoje. A pressa para tirar o atraso dos investimentos em distribuição, além do objetivo de prestar um serviço melhor à população, tem também um jogo estratégico: a revisão tarifária de 2012 e a renovação das concessões em 2015. "Temos que correr e melhorar os resultados da empresa, porque como a maior parte das empresas, 2015 é o fim de uma concessão. Em 2012, ou seja, daqui a três anos, tenho que estar com a empresa pronta e já pedir à Aneel uma prorrogação de concessão. E se eu não estiver com a empresa dentro dos índices, com todos os parâmetros funcionando, sem grandes reclamações, é difícil falar: me dá mais concessão", alerta. Confira abaixo trechos da entrevista concedida ao Correio.

Consumidores de diversas regiões do DF sempre reclamam de constantes picos de luz. Os investimentos programados para este ano e para o ano que vem resolverão o problema?

Nós, realmente, nos últimos anos, investimos muito pouco em distribuição, a prioridade passada era mais investir em geração do que em distribuição. Então, a CEB hoje tem 200 megawatts em geração. Só que deixou de haver um equilíbrio de investimento, e como a CEB é distribuidora, obviamente que o sistema de distribuição foi prejudicado. Como vamos distribuir esses R$ 100 milhões? Ampliando o sistema, com obras. Basicamente, vamos recompor o sistema, porque não só as interrupções estão prejudicando a população, mas estamos deixando de atender também cargas novas. Por que? Porque o sistema está sobrecarregado. Vamos colocar no sistema, até o fim do ano, 25 grandes transformadores. Além disso, estamos ampliando o sistema de distribuição e transmissão e reformulando todo o sistema, dando uma manutenção, que chamamos preventiva. Quer dizer, antes de surgir um problema, você já sai aprimorando, compactando. Isso é o que vai acontecer muito no Lago Sul e no Lago Norte. Nós vamos compactar o sistema de distribuição e, com isso, como o sistema é novo, tecnlogicamente diminui perdas, então a tendência ao terminar esse trabalho, é que o número de interrupções e, o que é mais importante, a duração a interrupção sejam bastante reduzidas. É difícil medir isso mas, no mínimo, tem que cair para os próximos seis meses uns 30%. Não justifica uma empresa como a CEB com uma demora tão expressiva de desligamentos e atendimento ao consumidor, como vem ocorrendo. Leia a entrevista:

R$ 200 mi em dois anos

Qual é o tempo médio das interrupções hoje?

Temos os índices DEC e FEC, que são determinados pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). DEC é a duração das interrupções e FEC é a frequência. Devemos estar com 30% acima dos níveis estabelecidos pela Aneel. Temos que cumprir tudo que é determinação da Aneel, porque se não cumprirmos, somos multados, e já fomos multados.

Então, criou-se um gasto fixo anual com pagamento de multas pelo fato de a CEB não estar cumprindo esses índices?

Não sei desde quando estamos ultrapassando esses índices, mas, ultrapassados esses índices, a Aneel penaliza. Claro que este ano não recebemos nenhuma punição ainda, mas estamos trabalhando, já fizemos uma reunião com a Aneel, prometendo essa diminuição. Esse plano de obras, também apresentamos à Aneel. O objetivo nosso é entrar, até o fim do ano, dentro dos índices da Aneel. Esse é um compromisso nosso: reduzir em 30% o número e a frequência dos cortes de energia.

Daí a necessidade desse investimento grande.

É exatamente com investimento, não tem jeito. E investimento é tempo. E se você perguntar: e esse dinheiro? Vocês estão sempre duros. Na terça-feira, junto com o governador (JOSÉ ROBERTO ARRUDA), vamos assinar um contrato com o Banco do Brasil, onde serão liberados R$ 60 milhões do FCO, que é o Fundo do Centro-Oeste. Estamos recebendo recursos da Eletrobras, cerca de R$ 40 milhões, e temos entendimento - já falei com a diretoria da Eletrobras - e eles afirmaram que podem liberar mais R$ 40 milhões ainda, se eu apresentar os projetos adequadamente, dentro das regras.

A CEB ficou quanto sem investir em distribuição, voltado para

geração e por quê? Não teria que haver investimento paralelo nas duas frentes para o sistema funcionar bem?

É questão de estratégia e prioridade de empresa. Não vou criticar o passado, não é meu papel. Realmente, ficamos oito anos aí com poucos investimentos em distribuição e investimentos mais pesados em geração. Naquele momento, achou-se que, estrategicamente, a empresa distribuidora teria que ter esse "poder" de gerar. Na nossa visão do governo Arruda desses dois anos foi priorizar os investimentos em distribuição. Nesse período, nosso objetivo foi recompor a empresa, refazer projetos, pois não se pega financiamentos sem ter projetos e fazer planejamentos. Agora, nesses dois anos restantes - o ministro (José Jorge, ex-presidente da CEB) teve que sair, vai para o TCU (Tribunal de Contas da União) - então estou assumindo como profissional do setor que eu sou para implementar isso aí. Foram dois anos de preparação para agora entrar num período de obras intenso, e vai ser bastante intenso mesmo. Além da questão dos investimentos, nós temos um problema de perdas muito grande no Distrito Federal. Podemos dizer que perdas técnicas pelo sobrecarregamento do sistema estão hoje em torno de 7% a 8%, mas temos quase 15% de total de perdas. É gambiarra de energia, roubo, coisa desse tipo. E como que você diminui? Reforçando o sistema. Temos o objetivo de reduzir, pelo menos, 2% a 3% dessas perdas técnicas.

A Aneel também determina algum parâmetro para essas perdas?

Não. Aí é prejuízo da empresa. Temos um padrão Brasil, em torno de 6%. O outro não, é cada um por si. É gambiarra, perda e desvio de energia. E aí, como é que se faz? Primeiro, regularização de condomínios. Aqui no DF, a maioria deles, são todos irregulares. Dou exemplo do condomínio Sol Nascente. Temos lá 12 mil famílias, quase 80 mil pessoas que não tinham padrão CEB. O que fizemos? Estivemos lá com o governador, lançamos um projeto de atendimento a toda aquela comunidade e estamos regularizando. Em seis meses, vamos instalar um sistema novo da CEB com um padrão CEB de distribuição.

Nesses casos, é "gato"?

As pessoas desses condomínios não pagam luz?

A maior parte não pagava, porque tínhamos a questão ambiental. Nós íamos lá, fazíamos o corte, mas 10 minutos depois era religado. Mas não poderíamos entrar por questão ambiental. Isso foi reduzido assinando um termo de ajuste de conduta com o Ibama, que permitiu que a CEB entrasse para regularizar. No condomínio Porto Rico, em Santa Maria, concluímos a regularização com 1,8 mil famílias. Isso tudo diminui perda, aumenta a receita da CEB e dá segurança para a população que estava em um sistema inseguro e de alto risco.

E esse custo era rateado na conta de todos os consumidores

que pagam pelo serviço.

Exatamente. E quando você também não cobra, o uso é descontrolado. E o desvio de energia e roubo de cabos era uma coisa expressiva. Então, tomamos providências como cadeados, trava de segurança em toda a área subterrrânea. Então, o que tínhamos de roubo e perda de cabos diminui drasticamente e, para roubos, estamos criando uma equipe especializada para fazer uma fiscalização adicional. Quem faz leitura já tem a obrigação de avaliar também, mas estamos criando uma equipe especializada para fazer uma checagem em toda residência, como se fosse um recadastramento, uma avaliação em todas as unidades do Distrito Federal para ver se está dentro do padrão, se está tendo desvio ou não, para ver se melhora os resultados da empresa. Tivemos um problema resolvido, bastante sério, uma dívida de Furnas, de R$ 220 milhões, que já vinha de algum tempo, e as taxas de correção desse valor eram bastante prejudiciais para a CEB. Então, no início do mês, pegamos um empréstimo na Caixa, com juros melhores, e quitamos essa dívida. E isso nos deu um fôlego financeiro. Estamos também desenvolvendo um programa, pois há vários terrenos da CEB que não estão sendo utilizados. Então, estamos tentando, via Câmara Legislativa e junto à Terracap, a venda desses ativos. Se tudo correr bem, a CEB pode, nos próximos 24 meses, arrecadar uns R$ 100 milhões. Isso também dá um reforço para nós.

O senhor fala de incluir a CEB na lista das melhores empresas de energia do país em um curto espaço de tempo. Isso é possível?

Perfeitamente. Prometi para o governador. Não tem como a CEB não ser um padrão brasileiro de distribuição de energia, não tem como. Há problemas estruturais e problemas conjunturais. Os conjunturais são emergenciais e resolvo: chama a equipe aqui, amplia, traz gente, mas estruturais são mudanças mais profundas, de sistemas, e isso exige, realmente, uma análise mais profunda, mais difíceis, e mudanças em vários tipos de sistemas, são modificações que já estamos trabalhando, mas são perfeitamente possíveis de chegar até o fim do ano. Em termos de índice, a CEB hoje tem um dos piores do Brasil. Temos quase que a obrigação de colocar a CEB, em um ano, entre as 20 melhores do Brasil. Então, o investimento nosso não é só para repor o sistema e dar maior credibilidade, é também para recompor a base de remuneração e melhorar a tarifa. Porque senão, é um ciclo vicioso: não tenho base de remuneração, não tenho investimento, não tenho tarifa, não tenho receita, que reflete em investimento. Temos que quebrar esse ciclo. Quebrar como? Só se quebra fazendo investimento. Não tem outra saída. Além de tudo, é um problema institucional que tenho que resolver, não é só por consumidor não. Temos que ter a empresa aqui funcionando bem, dentro das regras, dos índices, porque tenho que pedir uma prorrogação de concessão. É uma obrigação da CEB correr contra o tempo e temos três anos para colocar a empresa dentro dos padrões estabelecidos.